sexta-feira, 16 de junho de 2017

O LATIM DO GINÁSIO

          Antigamente, depois do curso primário, ingressava-se no chamado curso ginasial.  E no Ginásio, estudava-se o Latim como matéria obrigatória.  Naquele tempo, ou seja, no meu tempo de estudante do primário até o ginasial, até as missas das igrejas, no mundo inteiro, eram rezadas em Latim (pelos padres, claro).


          Era bonito, mas o povão não entendia nada.  Isso durou até 1965 ou 1966. (Em 1966, foi quando terminei meu curso ginasial).  Daí em diante, o Latim foi abolido das Igrejas e das escolas, em consequência de uma reforma ocorrida tanto na Igreja como no ensino em geral.  As missas passaram a ser rezadas na lingua de cada país.  Muitas outras reformas ocorreram, as quais já não me lembro mais. 

          Mas, nesta dissertação, vamos falar sobre o Latim:
Que língua é essa?
O que tem a ver com nosso idioma?
Ainda hoje se usa?

          Vamos por partes, é interessante.
1) O Latim, é uma língua antiga, e era falada nos tempos do antigo Império Romano.  Hoje, é uma língua morta.

2) Mas o Latim tem sua importância por se tratar digamos, de uma "língua-mãe", ou seja, essa lingua deu origem a outras línguas, como o português, espanhol, francês, italiano e até no alemão, existem algumas palavras que se originam do latim, como por exemplo, "das ministerium" (o ministério), "das Prakticum" (o estágio), "das Datum" (a data).

3) Aquele que estuda português a fundo, com certeza deve estudar um pouco de Latim, porque é muito útil.  Em português, temos palavras que são "Latim puro", como por exemplo, nas expressões: "a priori" (a princípio), "Corpus Christi" (corpo de Cristo), "in loco" (no local), "sui generis" (próprio do gênero), "Curriculum Vitae" (descrição de habilidades profissionais ou culturais), enfim, existem muitas outras palavras em Latim, que são usadas com bastante frequência.

          Quando eu estudava no Ginásio São Miguel, lá em Passa Quatro, meus professores de Latim eram o padre Michel e o padre Joaquim.  Nós, os alunos, fazíamos muitas Análises Sintáticas das fábulas de Esopo, um escritor grego.  Era divertido, porque essas fábulas não passavam de estórias infantis, mas que no final traziam uma mensagem de sabedoria profunda.

          Me lembro de algumas fábulas, como: "A assembléia dos ratos", "o cachorro e o lobo", "o cachorro e o seu reflexo na água", e haviam outras que não me lembro mais.  Essas fábulas, de origem grega, eram pequenas estórias escritas em Latim, e tínhamos primeiro, que passar a estória para a ordem direta, ou seja, analisar gramaticalmente o que vinha primeiro, se objeto direto, indireto, verbo e outras figuras gramaticais, e finalmente traduzir a estória para o português, com ajuda do professor.  Isso, apesar de trabalhoso, ajudava enormemente para entender melhor a nossa própria língua portuguesa, que deriva do Latim.

          Hoje em dia, quem estuda Direito, conhece muitas expressões em Latim, que os advogados gostam de usar na redação de seus processos, e que os magistrados entendem perfeitamente.  Vejamos, algumas dessas frases latinas e o seu significado:

"Difficile est langum Subito deponere amorem"
(difícil é esquecer um grande amor)

"Actore non probante réus absolvitur"
(Se o autor não prova, o réu é absolvido)

"Modus operandi"
(modo de trabalhar)

"Modus vivendi"
(modo de viver)

"Causa mortis"
(causa da morte)

"Ad infinitum"
(até o infinito)

"Data vênia"
(dada a licença)

"Habeas corpus"
(apresente o corpo, ou seja, um termo jurídico para dar liberdade ao preso)

          Para terminar, vou contar uma estória caipira, que tem a ver com este assunto:
... ... Há muito tempo, houve uma revolução entre São Paulo e Minas Gerais (isto é um fato verídico). E, devido a essa revolução, durante algum tempo, houve uma certa rivalidade entre Minas e São Paulo (mas nada sério).  E assim, certa vez, um caipira foi a São Paulo, e viu uma placa onde estava escrito em Latim:
          "PRO BRASILIA, FIANT EXIMIA"
          O caipira mineiro ficou lendo aquela placa, pensou, pensou, e por fim disparou sua conclusão:"Ah! Mais isso é disaforo de polista! Tá dizendo que pro brasileiro não vende mais fiado!!!"
          Na verdade, o que a placa dizia era o seguinte: "Pelo Brasil se fizeram grandes coisas".

Latim, língua mãe

A ASSEMBLÉIA DOS RATOS
          Para ilustrar o assunto da redação anterior, vou contar com minhas palavras, uma fábula de Esopo, que ainda guardo na memória: A Assembléia dos Ratos.
... ... No porão de uma certa casa, havia uma quantidade muito grande de ratos.  Uma verdadeira população dessa praga.
          Mas, nessa casa, havia também um gato, que era o terror dos ratos.  Resolveram então os ratos, organizar uma "Assembléia", ou seja, uma reunião para que todos pudessem apresentar ideias de como se livrar do gato.
          Muitas ideias foram sugeridas, mas apenas uma, foi aprovada por unanimidade.  A ideia era a seguinte: colocar um sininho no pescoço do gato, para que, quando este se aproximasse, os ratos escutassem o tilintar do sino, e assim rapidamente se esconderiam.
          Os ratos bateram palmas para essa ideia brilhante, todos aclamaram, menos um: um rato já velho, mas muito sabido.  E, indagado porque não havia se entusiasmado com a ideia, ele respondeu: - Realmente, a ideia parece boa, mas quem de vocês se habilita a colocar o sino no pescoço do gato? Um silêncio se fez então, na Assembléia, e ninguém se apresentou com coragem bastante para essa façanha.
MORAL DA ESTÓRIA: Falar é fácil, difícil é fazer!



JOSÉ E MARIA

Primeira Comunhão

          Pode ser puro saudosismo de minha parte, relembrar coisas de antigamente. Mas eu guardo boas lembranças dos velhos tempos, desde velhos amigos, a outros detalhes bastante interessantes. Lembro por exemplo, da minha primeira escola, o Grupo Escolar Presidente Roosevelt, em Passa Quatro-MG, onde as professoras eram verdadeiras sacerdotisas da educação.



          Lembro também, do meu primeiro dia de aula: havia muitas crianças matriculadas, e sendo assim, o 1º ano foi dividido em duas turmas, em duas salas diferentes.  A escola era muito rigorosa em termos de regulamentos. Todos os dias, os alunos tinham que entrar em forma.  Parecia um colégio militar; ordinário, marche!  Tínhamos que formar filas de dois em dois alunos, à distância de um braço, ou seja, cada aluno colocava sua mão direita no ombro do colega à sua frente, apenas para medir e manter uma distância uniforme.  Depois, cantávamos hinos pátrios: Hino Nacional, Hino à Bandeira...

          Mas o detalhe curioso, era com relação aos nomes das crianças.  Como havia Marias e Josés. Havia dezenas. Para mim, era enfadonho, na hora da chamada.  Todos os dias a Professora declinava o nome de cada aluno, pela ordem alfabética.  Quando chegava nas letras "M" e "J", parecia que não acabava mais: Maria José; - presente... Maria Helena; - presente... Maria Rita; - presente... Maria da Penha; - presente... - Maria do Socorro; - presente... Maria Inês; - presente... Maria Aparecida; - presente... e assim por diante.  Para o nome José, era a mesma coisa: José Benedito; - presente... José Eustáquio; - presente... José Dirceu; - presente... José Maria; - presente... José, José e José; havia tantos que nem me recordo de todos.  Claro que também havia alguns nomes raros, como por exemplo: Herminária, Deusdedit, Floriovaldo, Gervásio, etc, mas eram poucos.

          Tenho a impressão de que naquele tempo, dava-se preferência para os nomes de Maria e José, quiçá por uma influência religiosa, afinal, todos queriam ter o nome dos pais de Jesus.  Hoje, a preferência é para nomes diferentes, como por exemplo, Miguel Arcanjo, Dimitri, Sebastian, Patrick, Igor, Hérica, Amanda, Letícia, etc.  Basta observar os nomes dos personagens das novelas de televisão.

          Recentemente, "sem querer querendo", eu ouvia o papo de uma escurinha no interior de um salão de cabeleireiros;  a escurinha era manicure, e conversava com a freguesa, dizendo: - "eu dei o nome na minha filha de Milady.  O escrivão do Cartório não queria aceitar, dizendo que isso não era nome. Eu disse a ele: é nome sim, eu ouvi na televisão e gostei tanto... Eu quero registrar minha filha com esse nome: é Milady".  Bem, não sei como o tal escrivão teria registrado a criança.  Talvez ele tenha aportuguesado esse nome para Mileide, atendendo ao desejo da mãe.

          Antigamente, principalmente nos tempos bíblicos, cada nome tinha um significado.  Como por exemplo: Jesus, que significava aquele que era o enviado de Deus;  Abraão, que significava pai de uma grande nação.

          Não sei porquê, mas cada nome parece ter certa influência na vida de cada um.  Os antigos acreditavam muito nisso.  A propósito, a minha avó já dizia: - "todo João é bobo e todo Pedro é louco..."  Naturalmente, que isto não deve ser levado muito a sério, mas a vovó tinha razão.  Em cada um destes nomes, há um quê de bobeira e de loucura.

          Certa vez, minha sobrinha queria batizar o seu filhinho recém nascido, de João Pedro.  Eu lembrei do que dizia minha avó, e eu disse a ela: - "Oh coitado! Não faça essa maldade com a criança..."  Ela quis saber o porque.  Eu pensei, pensei, e disse: bom, deixa prá lá...

          Sugiro, (não é nome japonês), que cada um procure saber um pouco do seu próprio nome através do seu horóscopo pessoal, ou da numerologia do nome.  Caso conveniente, tratem de mudar a sua forma de expressão.  Aliás, é o que fazem os nossos artistas de televisão, não é mesmo?

          "Meu eu morre a cada instante, e na transmutação se revela o eterno..." (Chuan Tsé).

(OBSERVAÇÃO: na foto acima, uma lembrança da minha primeira comunhão realizada no Grupo Escolar Presidente Roosevelt. Nesta foto estão todos os meus colegas do 1º ano primário)

JULINHA

a menina da escola          Vou contar uma estória, que tem inicio nos meus tempos do Grupo Escolar Presidente Roosevelt, em Passa Quatro-MG.  Foi lá pelos idos e bons tempos dos anos de 1958, 1959. Eu me lembro, "tudo está ainda diante dos meus olhos"... Eu tinha 9 anos de idade, e estava no terceiro ano do curso primário.  Na minha sala de aula, muitos alunos e alunas, nessa mesma faixa etária.


          Na hora do recreio, meninos não se misturavam com meninas.  Haviam pátios separados.  Mas, todos os dias, ao final da aula, os alunos deixavam o Grupo Escolar, e saiam caminhando pela rua, para suas casas.  As crianças iam sozinhas.  Nenhum pai ou irmão tinha carro nessa época para levar as crianças.  E a caminhada de volta para casa, era tranquila.  Igualmente, as Professoras também iam a pé de volta para suas casas, era tudo muito natural.

          Era comum também, ver uma Professora rodeada de crianças, principalmente meninas, caminhando juntas num cortejo até gracioso, em direção às suas respectivas casas. Na minha sala, ou na minha turma, também acontecia o mesmo. E eu, às vezes me juntava a esse cortejo, e seguia junto com as meninas e a Professora, nessa caminhada de volta para casa.  Mas, no meu caso, era por um motivo especial: nesse grupo de alunos e alunas acompanhando a Professora, havia uma menina, que eu achava muito, mas muito bonitinha... Ela se chamava Julia, e todos a chamavam de "Julinha".  Eu só olhava para ela, admirando-a, mas parece que ela nem me notava.  Era apenas uma admiração, eu achava que a Julinha era a mais bonitinha da Escola.  

          Éramos todos crianças, e namoro, nunca passou pela minha cabeça nessa idade.  Eu só olhava, nada mais.  Que manina bonita, a Julinha.  A mais bonita da Escola.
           Mas o tempo passa, implacavelmente, e nossas vidas tomam rumos diferentes. Dando um salto no tempo, agora estamos no ano de 2001, e eu, há muito tempo, deixei para trás a vida tranquila e bucólica de Passa Quatro.  Mas, o destino me trouxe nesse ano (2001), duas surpresas, uma triste e outra alegre, assim simultaneamente, e no mesmo dia.  Vou contar como aconteceu, foi assim:

          Meu tio Carlos, já havia falecido há algum tempo, e agora, a sua mulher, de nome Zafiriça Papadoplo (ou popularmente "Paparuna", como era conhecida), coitada, morreu.  Ela já vinha sofrendo com problemas de saúde.  Bem, é a vida, Deus assim determinou.  Eu saí de Resende, onde agora tenho minha residência, para ir ao seu enterro, lá em Passa Quatro.  Mas eu me atrasei um pouco na viagem, e quando lá cheguei, ela já se encontrava dentro de um caixão, na Igreja Matriz da cidade, e a missa de corpo presente já havia começado.

          Mesmo assim, encontrei um lugar próximo ao altar, e pude assistir à sua missa.  Terminada a missa solene, fui acompanhando a movimentação das pessoas presentes, e quase na porta de saída da Igreja, fui abordado por uma mulher, que me chamou pelo nome, e assim me falou: - Guilherme! Como vai?  Eu sou a Adelaide, fui sua professora, lembra? ... ...

          Confesso que ela me surpreendeu, e levei alguns segundos para me situar e lembrar; - Ah, sim, Dª Adelaide?  Nossa, que surpresa, que saudade... Ele ainda me disse o seguinte: - Lá em casa, ainda guardo os trabalhos que você fez para o jornalzinho da escola, lembra?

          Eu não me lembrava com detalhes desse tal jornalzinho, mas disfarcei e disse: - sim, Dª Adelaide, há quanto tempo, ainda tem guardado esses trabalhos escolares?  Nesse momento uma outra mulher que estava junto com a Dª Adelaide, interrompeu e disse:

          - E de mim, você se lembra? - Devo confessar que também não me lembrava assim de momento, mas acho ue ela percebeu a minha dúvida, e logo tratou de falar: - Eu sou a Beatriz Galvão, freguesa da sua tia... Quando ela disse o seu nome, imediatamente me lembrei:  ela era aquela moça que se casou um dia, em Passa Quatro, e para quem a minha tia fez um vestido de noiva, muito bonito, todo trabalhado.  Essa Beatriz, filha do casal Nair Galvão e Francisco Galvão Cesar, conhecido como Chiquinho Galvão, e que na época, era o Prefeito da cidade!  Então eu disse para ela:

          - Sim, eu me lembro de você, e guardo também fotos antigas do seu pai.  Conversamos mais alguns minutos e nos despedimos, porque eu devia acompanhar o cortejo fúnebre, que já seguia em frente.  Depois, quando eu já estava ao lado do meu carro, estacionado bem próximo da Igreja, fui novamente abordado:

          - Guilherminho? Eu sou a Julinha, fui sua colega de escola! - Confesso que dessa vez, a surpresa foi maior ainda, e assim meio desconcertado, disfarcei o espanto e conversei com ela poucos minutos, sem saber direito o que falar.  Ela estava mudada, uma moça bonita, um pouco diferente daquela Julinha da minha escola primária.  Ela me disse: - apareça por aqui de vez em quando, você sumiu de Passa Quatro... - Eu disse que sim, que apareceria sim, mas no fundo, eu sabia que não poderia cumprir a promessa... Bem, foi assim, nos despedimos, e eu continuei surpreso, interiormente.

          Puxa, três pessoas, três surpresas agradáveis no mesmo dia, simultâneas, apesar do motivo pelo qual eu ali me encontrava, ou seja, um sepultamento...  

          Isso me deixou pensativo por vários dias, mas por fim, conclui meus pensamentos com um veredicto rápido em duas palavras: MILAGRE, ACONTECEM!  (e parece que o mundo fica mais bonito quando boas coisas acontecem)...  (Nesta foto, Beatriz Galvão e Gary)
Beatriz Passa Quatro


VEIO PARA JUNTO DOS SEUS

          Gosto muito de ouvir, e de contar estórias.  Algumas são muito interessantes, outras servem para nos ensinar alguma coisa, ou ilustrar um fato.  A propósito, eu me lembro de uma estória quase perdida na noite dos tempos... Verídica. Só não me recordo, o nome do personagem, mas trata-se de um garoto esperto, que mais tarde veio a ser muito conhecido. Pois bem, a estória qaue vamos contar, envolve esse garoto, sua professora, sua escola, seus coleguinhas e também um burro;

          ... Estavam reunidos numa sala de aula, o garoto, a professora, e demais alunos da classe de um curso primário.  A escola, pelo fato que vamos narrar, certamente ficava em algum lugar parecido com o terreno de uma fazenda, ou seja, num campo, distante da cidade.

          Certa vez, a mestra e os alunos, foram surpreendidos com a entrada inesperada de um animal, melhor dizendo, de um burro, em plena sala de aula.  O asno, talvez pela algazarra da criançada ante a sua presença inusitada, correspondeu com um gostoso relincho (ou zurro, que lhe é próprio).  A professora, nervosa e apavorada, ordenou desesperadamente que seus alunos expulsassem o intruso da sala.  E as crianças, alegremente assim fizeram, e o burro voltou para o seu pasto verde.

          Refeitos daquele momento de confusão, de barulho e de risos pelo acontecimento incomum, a professora disse então aos alunos: - Aproveitemos este incidente; quero que todos façam uma redação, narrando o episódio que acabamos de vivenciar.

          E todos começaram a trabalhar no pedido da professora, menos o garoto, o personagem da nossa estória, que ficou a pensar, como que olhando para o alto, para as moscas voando.  O tempo se esgotava, e a mestra pedia que todos terminassem o trabalho.  O garoto então, escreveu no seu caderno, uma única frase: "Veio para junto dos seus, e os seus o enxotaram"... 

          Nesta única frase, o garoto simplesmente sintetizou o acontecimento, citanto uma passagem bíblica, cujo texto correto, seria mais ou menos assim: "veio para junto dos seus, e os seus dele se apartaram"...  numa referência a Cristo, que foi renegado por seus amigos.

          Bem, o nosso garoto provou que era mesmo perspicaz, e a estória termina aqui. Que nota você daria para o garoto?

GRUPO ESCOLAR

Passa Quatro, MG

          Eu me lembro com saudade, das minhas professoras do primário, no Grupo Escolar Presidente Roosevelt, em Passa Quatro-MG.


          Primeiro, foi a Dª Isaura, no meu 1º ano primário.  No segundo ano, foi a Dª Guiomar, no terceiro ano, foi a Dª Adelaide, e finalmente no quarto ano, foi a Dª Marisa, na época, procedente de Belo Horizonte.  Ela veio para Passa Quatro, juntamente com seu marido, que era engenheiro da estrada de Ferro (RMV-Rede Mineira de Viação).

          Todas essas professoras eram grandes mestras, muito dedicadas aos seus alunos. Dª Isaura, nos ensinava as matérias de praxe, como Linguagem (Português), Aritmética (Matemática), e também nos ensinava Religião.  A propósito, a minha "Primeira Comunhão" foi realizada nesse primeiro anono primário, e no próprio Grupo Escolar, num evento religioso realizado ao ar livre, organizado pela Diretora, que se chamava Dª Carmen.  Guardo uma foto desse evento, onde reconheço muitas pessoas presentes, e me recordo de muitos amigos e colegas da época, 

          Naquela época, em Passa Quatro, haviam muitos alunos, desde crianças da cidade, da área rural e dos bairros mais distantes, e só tínhamos esse Grupo Escolar.  Por esse motivo, havia dois turnos de aulas, sendo de manhã, das 7 horas até 11 horas e à tarde de 13 às 16 horas.  Os alunos do 1º e 2º ano, estudavam na parte da tarde, e os alunos do 3º e 4º ano, estudavam de manhã.  

          Para o 1º ano, haviam duas turmas em 2 salas separadas; a sala dos que iniciavam o seu curso primário, e a outra sala dos alunos repetentes.  Para essa turma, dos repetentes, a sala era conhecida como "sala do 1º ano adiantado".  Quando eu comecei meu curso primário, eu já sabia ler e escrever, pois eu havia aprendido em casa, desde meus 5 anos (tendo como professores meus tios Guilherme Jr e Clara Köhn). 

          Sendo assim, eu comecei  entrando direto na  "sala do 1º ano adiantado" (dos repetentes), e na minha infantilidade, eu tinha prazer em falar a quem perguntasse, que eu estava no 1º ano adiantado.  Que bobo fui, pois podiam interpretar que eu era um "repetente".

          Mas, voltando à Dª Isaura, por vezes ela dizia: - hoje vamos fazer uma excursão, e saia com seus alunos, todos em forma, dois a dois, em fila, para um passeio fora da escola, num jardim próximo, o Jardim dos Leões, como era chamado.  Nesse jardim, que era um recanto de lazer, havia muita vegetação, árvores frondosas, bancos de madeira espalhados por entre o jardim, muitas flores e um pequeno lago de águas limpas, plantas aquáticas e peixinhos coloridos, vermelhos, amarelos, brancos.  

          E a boa professora Dª Isaura, ia explicando às crianças (seus alunos), os nomes das árvores e das flores; - estas flores são as margaridas, as rosas, bocas de leão, etc, etc.  Terminado o passeio, voltávamos para a sala de aula, e a Dª Isaura então, mandava que todos fizessem uma "composição", ou seja, uma redação sobre o que tinham visto no passeio. 

          E todos redigiam naquela simplicidade característica das crianças.  A maioria escrevia coisas bem simples, mas havia também composições (redações) interessantes.  Me lembro também, que em nossa sala de aula, havia uma espécie de painel (tripé de madeira) com várias gravuras grandes que podiam ser visualizadas uma por uma. Eram gravuras de paisagens diversas; uma fazenda, um rio, montanhas, pessoas, etc. 

          Em outros momentos, a Dª Isaura escolhia uma gravura qualquer, e pedia que os alunos fizessem uma composição sobre aquele tema, ou seja, sobre o que a gravura mostrava. Eu me lembro, que certa vez a minha redação era mais ou menos assim: "Eu estou vendo uma menina. Ela se chama Alvarina (OBS: eu não sei de onde eu havia tirado esse nome, mas eu o achava bonito. Devo ter visto em algum lugar).   Continuando: ... Alvarina tem um cachorrinho. O cachorrinho se chama totó.  Eles moram em uma fazenda.  Na fazenda tem galinhas, patos, cavalos e vacas..."

          Bem, eu tinha 7 anos, e assim eu escrevia na minha simplicidade de criança.  As meninas mais espertas e desinibidas, tinham que decorar um pequeno trecho de uma poesia, e recitar na frente da sala, como se fosse um auditório.  Eu me lembro de uma menina chamada Lucia Caetano.  Ela sabia de cór um recital de uma estorinha infantil, intitulada "Nhá Barbina".  Era uma estorinha um tanto engraçada para a época, que até outras professoras pediam para a Lucia fazer o seu recital em qualquer evento festivo do Grupo Escolar.  E, de tanto ouvir essa estorinha, eu também acabei guardando na memória essa estorinha da "Nhá Barbina".  No final deste comentário, vou transcrever essa estorinha completa, para deixa-la aqui registrada.

          Tenho uma boa lembrança também, da Dª Adelaide, minha professora do 3º ano. A casa dessa professora, era uma extensão da escola, ou seja, do Grupo Escolar;  eu me lembro que de vez em quando, ela organizava reuniões em sua casa, com alguns alunos, para fins de trabalhos escolares, e que depois, tais trabalhos eram levados para a sala de aula, com intuito de incentivar outros alunos.
Essas reuniões escolares na casa da Dª Adelaide, eram na verdade, uma aula "extra", com os alunos mais aplicados.  Ela tinha prazer em dar aulas.  Ela também ensinava os alunos a rezarem no inicio e ao término da aula.

          Me recordo também, que eu gostava de desenhar, e quando eu estava no 2º ou 3º ano (não me lembro exatamente), eu ilustrava minhas "composições" (redações), com algum desenho inspirado em figuras ou revistas.  Bem, a professora manda fazer uma redação.  Tema livre. Então, eu fiz uma redação (composição), sobre uma menina da minha sala, chamada Rosana Perroni.  Não me lembro das palavras que usei na redação, mas acho que eram palavras bem simples.  Mas, eu fui motivo de risos e de encarnação por parte dos meninos e meninas, porque a professora mostrou para todos da classe a minha redação e o desenho que eu havia feito da nossa coleguinha, uma menina com duas tranças compridas, soltas, amarradas na ponta com uma fitinha de tecido, exatamente como usava nossa coleguinha, a Rosana.  Não sei, mas talvez ela ainda se lembre desse fato até hoje. 

A seguir, uma foto antiga das professoras: Dª Isaura, Dª Guiomar, Dª Julia Siqueira, e outras...

Dª Isaura, Dª Guiomar, Dª Julia Siqueira e outras

A seguir:
O RECITAL E MONÓLOGO DA "NHÁ BARBINA"  (ENCENADA POR LUCIA CAETANO, DESDE O 1º ANO PRIMÁRIO).

Eu e a Nhá Barbina, fumo convidado pruma festa.
E a Nhá Barbina, quiria ir.  (Obs. A Lucia dava uma ênfase nesta fala, batendo com um punho fechado na outra mão);
- Mais num vamo, Nhá Barbina.  (Com ênfase na fala)
- Mais eu quero ir...  (Lucia dando de ombros nesta encenação)
- Mais num vamo, Nhá barbina...
- Mais eu quero ir...
- Então vamo.
E então nóis fumo indo, fumo indo, inté chegar numa lagoa.
E a Nhá Barbina quiria nadar.  (Lucia repete os gestos)
- Mais num nada, Nhá Barbina !
- Mais eu quero nadar...
- Mais num nada, Nhá Barbina !
- Mais eu quero nadar...
Então nada.
Quando ela foi pondo o dedão na água, ela gritou: - Socorro, socorro, tô me afongando...
Pobre da Nhá Barbina, saiu toda molhada !
Intão nóis fumo indo, fumo indo, inté chegá na festa: lá tinha: leitão, frango assado, pipoca, tinha inté rojão. 
E a Nhá Barbina quiria sortá rojão!
- Mais num sorta, Nhá Barbina!
- Mais eu quero sortá...
- Mais num sorta, Nhá Barbina!
- Mais eu quero sortá...
- Intão sorta.  Eu vou te ensiná.  Ocê pega o forfi, risca, e quando o rojão fizer: Tchsssssssss, ocê sorta, hein Nhá Barbina, Ocê sorta, hein, Nhá Barbina!
Ela pegou o forfi, riscou, e o rojão fez Tchsssssssssss - Sorta, Nhá Barbina, Sorta, Nhá Barbina!
- Mais eu num quero sortá...
- Sorta, Nhá Barbina!
- Mais eu num quero sortá...
De repente o rojão fez...: BUUUMMMMM !
Pobre da Nhá Barbina, morreu toda queimada...







quarta-feira, 14 de junho de 2017

APRESENTAÇÃO


APRESENTAÇÃO I

          Este Blog, tem por finalidade contar estórias em forma de crônicas.  Coisas sobre as quais gosto de escrever e compartilhar com os amigos.  Estórias espirituosas, vividas ou não, estórias sérias ou fictícias, mas que tenham assim um "soft power" (poder suave) de fazer bem ao nosso espirito.


          Se estas crônicas alcançarem esse propósito, me sentirei recompensado.

"Cumpre falar com simplicidade das ideias complicadas com sutileza das ideias simples"

                                                                        (Jean Cocteau)

APRESENTAÇÃO II
Meu nome é Guilherme Köhn, e este é o meu Blog, PINHEIRINHO. Para quem não me conhece, faço esta minha modesta apresentação pessoal, dizendo apenas, que sou de origem mineira (Passa Quatro-MG), cidade que considero meu berço cultural, mas que atualmente vivo em Resende, Estado do Rio de Janeiro, cidade igualmente rica em cultura, artistas e poetas.  Minha intenção, é brindar meus leitores, meus amigos, companheiros e colegas, alguns dos quais também estão inseridos nestas minhas lembranças, e fazem parte  da minha história ou estórias.

O PREFEITO

Homem do Campo
          Na minha pequena cidade natal, de Passa Quatro, que fica no grande estado de Minas gerais, havia uma senhora, que tinha cinco filhos.  Quatro rapazes e uma menina.  Era uma família pobre, paupérrima.  O marido desta senhora, tinha uma semelhança com o personagem caipira conhecido como Jeca Tatu.  

          Era idêntico, pelo seu jeito de andar, suas precárias condições de vida e saúde, sem muito ânimo para trabalhar.  Viviam em uma choupana de barro, coberta de sapé, construída no terreno de um fazendeiro rico, de nome "Toin Parva" (Antonio Paiva).  A choupana ficava em meio a um "calipá" (plantação de eucaliptos da fazenda).

          Um dos filhos, trabalhava no "leiticino" (Lacticínio).  Apesar da sua casinha localizada bem longe da cidade, nos arredores de uma fazenda, esta pobre senhora diariamente estava na cidade, sempre em busca de algum alimento que pudesse levar para casa, fruto da generosidade que nunca faltava, por parte da boa gente da cidade.  Muitas famílias mineiras, piedosas, sempre lhe ajudavam.

          Nessa época, eu era um adolescente, e me escapava o entendimento da vida com mais profundidade, e até acreditava com uma certa dose de ingenuidade, em muitas coisas que ouvia das pessoas.  Aquela senhora, gostava de bater papo, sempre a reclamar da vida, e falar dos seus problemas. Contava, por exemplo, que um de seus filhos, não era "bão da cabeça" (sofria uma espécie de disritmia cerebral, conforme fiquei sabendo mais tarde); o outro filho, também estava sempre doente; a menina frequentava a escola, mas não aprendia nada.  Mas, em compensação, ela tinha um filho que era Prefeito...

          Prefeito?!! De qual cidade será, porque desta não é, pensei comigo mesmo quando ouvi sua estória, nas costumeiras tagarelices com os vizinhos.  Confesso que fiquei mesmo pasmado, em saber que aquela senhora, pobre daquele jeito, tinha um filho que era, imaginem... Prefeito !

          Somente muito tempo depois, é que me dei conta do que ela realmente queria dizer, ou seja, que todos os seus filhos eram problemáticos, e apenas um era perfeito.

          Hoje, relembrando estas estórias, percebo que aprendi outras palavras deste verdadeiro dialeto caipira, como por exemplo:
"Treis antonti"; que quer dizer, trás-ante-ontem, no dia anterior ao de anteontem...
"Hospi": para dizer hóspede...
"Lata discupada"; vasilha desocupada...
"Cadifó"; caixa de fósforo...
- "A água da pulano" (a água está fervendo);
- "Pó pô pó? (pode colocar o pó?)
- "Pó pô";  (pode)
- "Café tá fraco"  (o café está fraco)
- "É café co poco pó, pá popá o pó" (é café com pouco pó, para economizar)...

          Moral da estória: parece que o pobre sofre uma escassez de tudo. Economiza até nas palavras. PÔ...!